Última atualização: 29/04/2026 às 15:10
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Pesquisa identifica, pela primeira vez, os mecanismos pelos quais o café age no eixo intestino-cérebro com efeitos distintos para versões com e sem cafeína
Por Diogo Rodriguez | Época Negócios
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Tanto o café com cafeína quanto o descafeinado produzem benefícios distintos, mas complementares, sobre humor, cognição e estresse — Foto: Pexels
Uma xícara de café pode fazer mais do que combater o sono. Um estudo publicado na Nature Communications mapeou os mecanismos biológicos pelos quais o café influencia o eixo intestino-cérebro — a via de comunicação bidirecional entre o microbioma intestinal e o sistema nervoso central.
Os resultados, obtidos por pesquisadores do APC Microbiome Ireland, na University College Cork, na Irlanda, mostram que tanto o café com cafeína quanto o descafeinado produzem benefícios distintos, mas complementares, sobre humor, cognição e estresse.
A pesquisa acompanhou 62 participantes: 31 consumidores habituais de café (de três a cinco xícaras por dia) e 31 pessoas que não bebiam a bebida. Antes do início do estudo, os dois grupos apresentavam perfis semelhantes em indicadores como índice de massa corporal, pressão arterial, qualidade do sono, atividade física e níveis de ansiedade e depressão. A diferença estava no microbioma: os consumidores de café tinham maior concentração de determinadas cepas bacterianas, como as espécies Cryptobacterium e Eggerthella, e apresentavam alterações em marcadores imunológicos do sangue.
Para isolar o papel da cafeína, todos os 31 bebedores de café foram submetidos a um período de abstinência de duas semanas. Depois, 16 voltaram a consumir café com cafeína e 15 passaram a tomar descafeinado por três semanas — sem saber qual dos dois estavam ingerindo.
Cafeína faz diferença, mas não é tudo
Ao retomar o consumo, todos os participantes apresentaram mudanças no microbioma intestinal associadas ao café, incluindo alterações em cepas bacterianas observadas com ambas as versões da bebida. Isso indica que compostos presentes no café além da cafeína, como ácidos clorogênicos, trigonelina e melanoidinas formadas durante a torra, são responsáveis por parte dos efeitos sobre o intestino.
Os dois tipos de café reduziram estresse, depressão, impulsividade e inflamação, além de melhorar o humor e o desempenho cognitivo geral. Mas os efeitos específicos variaram. O café com cafeína foi associado à redução da ansiedade, do sofrimento psicológico e da pressão arterial, com melhora na atenção e na capacidade de lidar com situações de estresse. Já o descafeinado produziu resultados diferentes: melhora na qualidade do sono, aumento da atividade física e ganhos de memória.
Os pesquisadores identificaram nove metabólitos-chave, entre eles teofilina, cafeína e ácidos fenólicos selecionados, fortemente associados a espécies microbianas específicas e a medidas cognitivas. Essa correspondência entre compostos do café, perfis bacterianos e funções cerebrais reforça a hipótese de que a bebida atua sobre o cérebro, ao menos em parte, por meio do intestino.
O intestino como intermediário
O mecanismo central envolve os polifenóis do café, que funcionam como prebióticos, substâncias que servem de alimento para bactérias benéficas. Quando metabolizados por esses microrganismos, geram ácidos graxos de cadeia curta, como butirato, acetato e propionato, que ajudam a reduzir a inflamação e fortalecem a barreira intestinal.
“O café é mais do que cafeína — é um fator dietético complexo que interage com nossos micróbios intestinais, nosso metabolismo e até nosso bem-estar emocional”, afirmou o microbiologista John Cryan, investigador principal do APC Microbiome Ireland e um dos autores do estudo.
O estudo tem restrições relevantes: a amostra é pequena (62 participantes) e as percepções de humor e comportamento foram autorrelatadas pelos próprios voluntários, o que pode não refletir com precisão as mudanças reais. O financiamento veio do Instituto para Informação Científica sobre Café (ISIC), entidade ligada a grandes empresas europeias do setor, como illycaffè, Lavazza e Tchibo.
Ainda assim, a pesquisa avança em relação a estudos anteriores ao identificar vias biológicas concretas, em vez de apenas correlações estatísticas. Uma meta-análise citada no próprio artigo associou o consumo regular de café a uma redução de 27% na incidência de doença de Alzheimer. O estudo não estabelece causalidade para esse resultado, mas aponta mecanismos intestinais pelos quais tal associação pode operar.
“À medida que as pessoas pensam em mudanças dietéticas para melhorar o equilíbrio digestivo, o café tem potencial para ser incorporado como parte de uma dieta saudável e equilibrada”, concluiu Cryan.
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