Última atualização: 03/05/2026 às 19:56
![]()
Projeto que surgiu como um plano de aposentadoria aposta no cultivo do grão para revitalizar áreas da Mata Atlântica em Valença
Por Mariana Letizio — São Paulo | Globo Rural
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_afe5c125c3bb42f0b5ae633b58923923/internal_photos/bs/2026/S/G/WV7WQSScAKWQi1y55Fvw/whatsapp-image-2026-04-15-at-15.07.02.jpeg)
Reserva Comuna da Serra (ReCoSer) — Foto: Arquivo pessoal
O café surge como uma alternativa para reduzir os altos índices de desmatamento provocados pela pecuária extensiva em Valença, município do estado do Rio de Janeiro que abriga o distrito de Santa Isabel do Rio Preto. O grão é o principal agente do projeto Reserva Comuna da Serra (ReCoSer), que busca implementar a cafeicultura na região como forma de revitalizar a área e a economia local em novas bases.
Entre 2020 e 2021, Valença esteve entre os dez municípios com maior área desmatada no estado. Ao todo, foram 65 hectares derrubados, segundo o Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, estudo realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Com isso, o projeto, idealizado por Márcia Quaresma e André Tredinnick, propõe a autossustentabilidade de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) em uma propriedade adquirida em 2018. A área protegida soma 34,7 hectares, o equivalente a aproximadamente 49 campos de futebol, onde foram recuperadas trilhas de migração antes interrompidas pelo desmatamento.
Naturais do Rio de Janeiro e moradores da área urbana da cidade, Quaresma e Tredinnick contam que a iniciativa surgiu a partir de um plano de aposentadoria aliado ao desejo de contribuir com o meio ambiente. “Demoramos dez anos para encontrar o espaço, porque a realidade rural do interior do Rio de Janeiro é bastante específica. Há muitas propriedades não regularizadas, frequentemente divididas em diversas glebas e sem legalização”, explica Quaresma, que concilia a magistratura com os cuidados da RPPN. “Queríamos um lugar com mata nativa preservada e também espaço para plantio”, completa.
A área corresponde a um fragmento da Mata Atlântica de interior, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelo mapeamento da região. Trata-se de uma subdivisão do bioma, caracterizada por florestas estacionais e clima tropical sazonal.
“Com a finalização do plano de manejo, identificamos também exemplares de árvores centenárias que ainda estão sendo catalogadas pelos biólogos. Os indícios apontam para espécies como braúna e pau-brasil, por exemplo. A riqueza da flora realmente chama a atenção”, afirma Tredinnick, que também atua como juiz e divide a gestão da reserva.
A escolha do café como estratégia de revitalização da área desmatada surgiu a partir da observação dos hábitos da comunidade local e dos pés mortos encontrados na propriedade. A proposta é resgatar a cultura cafeicultora, presente tanto na região quanto na história do país, aliando-a ao reflorestamento.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_afe5c125c3bb42f0b5ae633b58923923/internal_photos/bs/2026/t/l/iM6j8VTvSmNByMOsqFAg/whatsapp-image-2026-04-15-at-15.07.03.jpeg)
Pés de café plantados na Reserva Comuna da Serra — Foto: Arquivo pessoal
“Passamos a nos perguntar se a mata não poderia coexistir com o café, já que a narrativa mais comum é a da destruição da floresta para o plantio do grão”, explica Tredinnick. Para ele, trata-se de uma alternativa em que “todos ganham: a floresta em pé, a produção de café e o resgate cultural”.
As primeiras safras foram colhidas recentemente, três anos após o início do plantio. Segundo Quaresma, o cultivo é feito em sistema agroflorestal, o que evita o modelo extensivo. “Plantamos o café junto às árvores nativas, justamente para manter a RPPN integrada ao ambiente e preservar sua dinâmica ecológica”, explica.
Na propriedade, cerca de seis alqueires são destinados à preservação integral, enquanto dois concentram o cultivo e as estruturas de apoio ao ReCoSer, iniciadas em 2020. A sede da reserva também segue princípios sustentáveis, com construção baseada em bioconstrução, como a taipa de pilão, além do uso de materiais como tijolos de terra crua, palha e água, a partir da técnica do adobe.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_afe5c125c3bb42f0b5ae633b58923923/internal_photos/bs/2026/s/A/jJfZCQToaWpc3ceoKOog/whatsapp-image-2026-04-15-at-15.07.02-1-.jpeg)
Sede da ReCoSer — Foto: Arquivo pessoal
Há ainda a previsão de implantação completa de um biodigestor, atualmente em fase de testes. O equipamento utiliza dejetos de porcos da propriedade para gerar energia limpa e produzir biofertilizante para o cultivo do café.
Tanto a arquitetura quanto às tecnologias adotadas são desenvolvidas com o apoio de profissionais especializados. Além de agrônomos, o projeto conta com empresas voltadas à sustentabilidade, como Gera Brasil, Matéria Base e Fluxo.
O turismo ecológico como futuro
Atualmente, o projeto está na fase de observação das safras. “Nossa proposta não é focar em quantidade, mas em qualidade. Queremos produzir um café especial não apenas pelo aroma, mas também pela forma como é cultivado, de maneira não agressiva ao meio ambiente”, afirma Quaresma.
Para o futuro, os idealizadores pretendem expandir a iniciativa como uma fonte de renda, mantendo o compromisso com a sustentabilidade. “É uma forma de produção viável e lucrativa”, avalia Tredinnick.
Além do café, eles apostam na diversificação das atividades como estratégia de segurança econômica. “Pelo que temos estudado, uma propriedade rural precisa ter diferentes fontes de receita. O café é uma delas, mas também estamos investindo no turismo rural e ecológico”, explica Quaresma.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_afe5c125c3bb42f0b5ae633b58923923/internal_photos/bs/2026/z/U/DBzkJWR4iTqXVifNAYXQ/captura-de-tela-2026-04-23-091803.png)
Câmera instalada na Reserva Comuna da Serra registra vida noturna na região — Foto: Arquivo pessoal
A aposta no turismo ganha força diante das incertezas provocadas pelas mudanças climáticas. “Uma safra pode ser comprometida pelas mudanças no clima que temos visto. Por isso, diversificar as atividades é uma forma de proteção e sustentabilidade para o negócio”, conclui.
Inclusão como Unidade de Conservação
Nesta semana, a Secretaria de Meio Ambiente de Valença entrou em contato com a ReCoSer para viabilizar a inclusão da RPPN como uma das Unidades de Conservação do município ainda em 2026. A medida permitirá à cidade obter benefícios fiscais por meio da redistribuição do ICMS ecológico.
A partir disso, é gerada uma pontuação, conforme previsto em lei estadual, que aumenta a parcela de recursos recebidos pelo município na arrecadação do Estado. Parte desse montante também pode ser destinada ao fortalecimento da gestão da própria ReCoSer.
Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.