FOTO: LUCAS NINNO/DIALOGUE EARTH
PRODUÇÃO DE CAFÉ
Edson Paes, de 53 anos, cultiva sozinho 12 mil pés de café arábica orgânico, voltado à exportação, em três hectares de terra em Poço Fundo, no sul de Minas Gerais, uma das principais regiões cafeeiras do Brasil. Quase toda sua produção é destinada à Europa, ao Japão e aos Estados Unidos por meio da Coopfam, cooperativa que reúne quase 500 agricultores familiares e busca habilitação para exportar também à China.
Nos últimos anos, porém, seu trabalho tem se tornado cada vez mais difícil devido às mudanças climáticas. Ele diz que “o café sofreu muito” com a estiagem em 2025, incluindo um hiato de “45 dias sem cair uma gota d’água”. O calor intenso também causa estragos. Em seu terreno, folhas de cafeeiros com manchas amarronzadas denunciam a escaldadura, problema provocado por temperaturas altas demais para o cultivo. “Aguentar o dia todo embaixo desse sol está ficando difícil”, disse ao Dialogue Earth em uma tarde quente de janeiro no cafezal que plantou aos 14 anos.
Produtores brasileiros já vêm tentando fazer ajustes após cinco colheitas consecutivas de café arábica afetadas por eventos climáticos, como ondas de calor, secas e geadas. Um estudo publicado em 2024 indica que, com o avanço do aquecimento e do estresse hídrico, entre 35% e 75% das áreas atualmente cultivadas com café arábica no Brasil podem se tornar economicamente inviáveis até o fim do século, exigindo investimentos crescentes em adaptação.
Maior produtor e exportador de café do mundo, o Brasil tem visto valorização do grão no exterior diante de uma oferta global mais restrita. Eventos climáticos extremos em grandes produtores, como secas no Brasil e inundações no Vietnã, reduziram a produção e os estoques, elevando os preços, enquanto o consumo continua a crescer na China.
Mesmo com um volume cerca de 20% menor embarcado entre 2024 e 2025, o Brasil registrou receita de US$ 15,5 bilhões em exportações no último ano, recorde da série histórica iniciada em 1990. Ao mesmo tempo, o aumento das temperaturas eleva os custos de produção, com maiores gastos em irrigação e controle de pragas.
Região movida pelo café
Poço Fundo, com 16 mil habitantes, tem na agricultura familiar o motor da economia. Ali, o café “faz tudo acontecer”, segundo o prefeito Rosiel de Lima.
Também cafeicultor e membro da Coopfam, Lima perdeu três quartos da lavoura em uma chuva de granizo em 2021. No ano passado, uma estiagem em plena estação chuvosa reduziu a qualidade dos grãos, o que contribuiu para uma queda de 40% em sua renda com o café.
“Todo ano tem uma intempérie climática: granizo, geada, vento frio, seca, chuva na florada, fora do momento certo”, diz o prefeito.
Muitos substituem variedades antigas por cultivares mais produtivas e resistentes ao estresse hídrico e a doenças. Outros, como Paes, adaptam as técnicas de manejo ou optam por mudanças mais radicais, como a adoção de agroflorestas.
Paes plantou cedro e mogno-africano para sombrear os cafeeiros e usa técnicas para reter mais umidade no solo. Confiante com as iniciativas empregadas na safra deste ano, ele segura um pé carregado de grãos. Mas, na sequência, pondera: “Você vê uma quadrinha boa de café, mas logo na frente outra que não tem. Não é tão uniforme como era”.
“Está assim em praticamente todas as lavouras da área”, afirma Alexander Ferreira, engenheiro agrônomo e técnico da Coopfam.
Nos últimos quatro anos, produtores aplicaram mais de R$ 40 milhões em crédito federal na recuperação de lavouras de café, quase todo o valor em Minas Gerais, onde as mudanças no clima já alteram o calendário e o rendimento da produção. Autora do estudo de 2024, Cássia Gabriele Dias, meteorologista e pesquisadora da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), explica que as secas se prolongaram, o calor se intensificou e as chuvas se tornaram mais irregulares, afetando fases decisivas como a florada e a formação dos grãos de café no estado.
FOTO: LUCAS NINNO/DIALOGUE EARTH
SOLO DO CULTIVO DE CAFÉ DE DOUGLAS LAGO, EM SANTA RITA DE CALDAS, RETÉM MAIS UMIDADE DEVIDO À COBERTURA DE GRAMÍNEAS, QUE REDUZ A EVAPORAÇÃO NAS ONDAS DE CALOR
A maior parte dos cafezais do estado se concentra em altitudes mais elevadas, o que, por enquanto, atenua os efeitos do aquecimento global. “Regiões mais ao sul, como o sul de Minas, tendem a manter maior aptidão, mas não estão livres de riscos”, afirmou Dias ao Dialogue Earth.
Lima diz que a valorização do café, puxada pela alta internacional e queda na oferta, trouxe alguma compensação aos produtores afetados pelo clima. Segundo Ferreira, da Coopfam, a saca do café convencional chegou a R$ 2,3 mil em 2025, mais que o dobro do valor em 2023.
Produção orgânica
Os custos para manter a produtividade diante das mudanças climáticas vêm aumentando, reduzindo os ganhos reais. Rosângela Paiva e o marido, Luis Carlos, avaliam instalar irrigação para enfrentar os períodos cada vez mais frequentes de calor e estiagem, sobretudo entre julho e outubro, quando ocorre a florada.
“Produzir hoje está muito caro”, queixa-se Paiva, de 50 anos. Em Poço Fundo, ela cultiva 5,5 hectares para a linha orgânica de café da Coopfam, cuja produção pode custar até 30% mais que a do sistema convencional.
Por outro lado, a demanda aquecida tem levado produtores a priorizar ganhos rápidos de produtividade, migrando do cultivo orgânico para o convencional. Na Coopfam, por exemplo, o número de cooperados orgânicos caiu quase 60% em dois anos, para 75 cafeicultores.
“O produtor vive da terra aqui na região, então tem a questão da sustentabilidade econômica”, diz Ferreira.
Ele acredita que o café orgânico voltará a ser financeiramente mais vantajoso quando a oferta de grãos se estabilizar no mercado, o que pode ocorrer já nesta safra. Condições climáticas mais estáveis neste ano levaram a Conab, responsável pelas estatísticas e políticas de abastecimento agrícola do governo, a projetar para 2026 uma safra recorde na série histórica iniciada em 2001: 66 milhões de sacas de café, quase metade produzida em Minas Gerais.
Rosana Mendes e Avair de Oliveira migraram em 2025 do sistema orgânico para o convencional, mas dizem aplicar defensivos apenas em gramíneas e capins, não nos cafeeiros. Por enquanto, a certificação europeia Fairtrade da Coopfam ajuda a controlar a expansão do agrotóxico na região, já que proíbe ou restringe a aplicação de fórmulas mais potentes como o glifosato.
O casal também renovou a lavoura com variedades de arábica mais produtivas e resistentes — estratégia que tem se difundido entre produtores do sul de Minas. Com essas adaptações, projetam aumentar a produção em 260% até 2027.
“O futuro na cafeicultura é um mistério”, diz Mendes. “A gente está estudando e aprendendo a cada dia com o clima, com a natureza, com a própria planta, para se adaptar a tudo que for necessário”.
O poder das árvores
Para contornar os impactos adversos dos extremos climáticos, os cafezais arborizados vêm ganhando espaço entre pequenos produtores do sul de Minas. João Ademir Pereira, de 58 anos, plantou ipês, pereiras, cambucás e jabuticabas-amarelas em um terço dos três hectares que cultiva. “As árvores ajudam a equilibrar o clima e a suavizar o sol”, diz.
À sombra, os cafeeiros produzem todos os anos; sem proteção, tendem a alternar uma safra alta com outra baixa, comportamento típico do arábica. Para este ciclo, Pereira espera colher mais de 30 sacas por hectare, em linha com a média nacional, quase todas destinadas à exportação.
Em parceria com a torrefadora alemã Tchibo, compradora do café da cooperativa, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas pesquisa formas de conter pragas como o bicho-mineiro, larva que se instala nas folhas e prejudica os grãos. Chuvas irregulares e temperaturas acima da média favorecem sua disseminação, mas estudos indicam que frutos e flores de árvores plantadas entre os cafeeiros atraem vespas predadoras que ajudam a conter a infestação.
“Precisamos incentivar os pequenos produtores, porque são os mais vulneráveis às mudanças climáticas”, diz Lêda Gonçalves, engenheira agrônoma e professora do instituto.
FOTO: LUCAS NINNO/DIALOGUE EARTH
A MAIORIA DOS CAFEZAIS DE MINAS GERAIS SE CONCENTRA EM ALTITUDES MAIS ELEVADAS, O QUE, POR ENQUANTO, ATENUA OS EFEITOS DO AQUECIMENTO GLOBAL
A mais de mil metros de altitude, a neblina e o orvalho da manhã refrescam os cafeeiros de Douglas Lago, em Santa Rita de Caldas, cidade vizinha a Poço Fundo. Com planos de iniciar exportações, sua família converteu três hectares de uma pastagem degradada em cafezal para a nova safra, que se somam aos seis hectares já cultivados com arábica.
Porém, além do calor e da seca, o frio em excesso também ameaça a produção de café. Em 2021, uma geada severa matou 60% dos dez mil pés da família. Após o replantio, outra geada eliminou mais 2.500 pés.
“O clima é o nosso maior desafio”, diz Lago, acrescentando que o trabalho exige persistência e não permite desânimo.
Para mitigar esses impactos sem comprometer produtividade e qualidade, a família plantou árvores para fazer sombra e amortecer o granizo, adensou os cafeeiros para reduzir o estresse hídrico e mantém abelhas nativas no quintal para reforçar a polinização e a nutrição dos grãos. “Se faltar chuva, falta água no grão; se falta água no grão, ele não dá o açúcar que o café precisa”, explica Lago.
Os resultados são visíveis. Nos últimos dois ciclos, a família alcançou produtividade equivalente ao dobro da média nacional. No ano passado, venceu o concurso de cafés especiais das cooperativas de Minas Gerais.
Outra alternativa ainda pouco explorada na região é a agrofloresta, que busca reproduzir o ambiente natural do café arábica, nativo das terras altas tropicais da Etiópia. Diferentemente das lavouras apenas arborizadas — onde árvores reduzem sobretudo o calor e o vento —, os sistemas agroflorestais são modelos mais complexos, que criam um ambiente mais estável para o café ao regular a umidade do solo e os fluxos de água, carbono e nutrientes.
“A agrofloresta é mais autônoma”, explica Rafael Furtado, mestre em agroecologia e desenvolvimento rural. “Ela produz mais recursos do que o sistema demanda e depende menos de insumos externos”.
Um estudo publicado na revista Agriculture, Ecosystems & Environment indica que sistemas agroflorestais podem mitigar os efeitos do clima extremo e manter até 75% das áreas de cultivo do café no Brasil até 2050.
Pensando nisso, Furtado passou a produzir café em dois hectares de agrofloresta. Ao se mudar para o sítio em Poço Fundo há quatro anos, encontrou um cafezal convencional, onde o proprietário anterior usava agrotóxicos e adubos químicos. De início, precisou investir tempo e recursos na transição para o cultivo orgânico.
“Minha produtividade não foi satisfatória até agora, mas já temos uma qualidade bem legal”, comemora o agricultor.
Furtado agora se organiza para tornar sua agrofloresta economicamente viável: acessa crédito da agricultura familiar, busca certificação orgânica visando à exportação, testa novas variedades e avalia quais culturas associadas com o café podem contribuir para a geração de renda, como banana, abacate e mogno-africano.
O fundo Pronaf Agroecologia, do Banco Nacional de Desenvolvimento, oferece até R$ 250 mil por agricultor para financiar práticas orgânicas ou agroecológicas. Porém, nos últimos 12 meses, o financiamento total somou apenas R$ 10 milhões em todos os setores da agricultura familiar. O financiamento internacional para as atividades agroecológicas também segue em uma fase muito embrionária: a chinesa COFCO International, por exemplo, está conduzindo um projeto-piloto para reduzir a pegada de carbono na produção de café brasileiro; já em parceria com uma fundação europeia, a gigante do agronegócio ajudou a lançar uma linha de crédito de R$ 1,6 milhão para projetos de resiliência hídrica em Minas Gerais.
Furtado afirma que os sistemas agroflorestais de café ainda têm “baixíssima adesão” no Brasil pela falta de conhecimento técnico, manejo mais complexo e retorno maior em qualidade do que em produtividade. Ainda assim, vê nesse modelo a melhor saída diante dos desafios crescentes do clima.
“No momento em que tiver mais pesquisa, apoio institucional, mais experiência, vai valer muito mais a pena adotar esse sistema mais diversificado e complexo do que permanecer na monocultura em um cenário de extremos climáticos”, diz Furtado.
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