Por Raul Costa | BHAZ
Apresentação demonstrou a importância cultural do processo de fazer o chá na China (Leo Fonseca/BHAZ)
A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apresentou, nesta terça-feira (22), a exposição ‘Sabores que Atravessam Oceanos e Montanhas’, que propõe um mergulho em duas rotas que ajudaram a redesenhar economias, culturas e até relações de poder no mundo: a do café, no Brasil, e a do chá, na China. A ideia é mostrar como essas bebidas, tão presentes no cotidiano, carregam histórias complexas, e faz parte das movimentações do Ano Cultural Brasil-China 2026.
A exposição pode ser visitada gratuitamente no saguão da Reitoria da UFMG até o dia 22 de junho. Aberta ao público, a mostra reúne painéis ilustrativos, conteúdos multimídia e demonstrações ligadas ao preparo do café e à arte do chá, permitindo uma experiência imersiva nas duas tradições. A visitação segue o funcionamento regular do espaço, e não é necessário agendamento prévio para participar.
A programação desta terça-feira (22) inclui ainda a realização de um fórum acadêmico e a assinatura de um memorando de cooperação entre a Universidade Federal de Minas Gerais e a Huazhong University of Science and Technology. A parceria tem como foco ampliar a mobilidade estudantil e fortalecer pesquisas conjuntas entre as instituições. O evento é aberto ao público e contará com tradução simultânea.
Desenvolvida a partir de pesquisas das escolas de Arquitetura das duas universidades, a exposição teve coordenação dos professores Natacha Rena e Liu Xiaohu. Segundo a diretora brasileira do Instituto Confúcio da UFMG, Miriam Mansur, a proposta simboliza o encontro entre os dois países por meio de seus produtos mais emblemáticos.
A mostra segue no saguão da reitoria da UFMG até 22 de junho e, depois, deve circular por outras 11 cidades brasileiras. A iniciativa é financiada e organizada pela Embaixada da China no Brasil, em parceria com a UFMG e a HUST, com coorganização do Instituto Confúcio e das escolas de arquitetura das instituições. Como desdobramento dessa cooperação, está prevista a criação de um curso superior de tecnologia em Secretariado, com início estimado para 2027, formato bilíngue e possibilidade de intercâmbio na China durante a formação.
No Brasil, o café não foi só um produto de exportação: ele estruturou o país. Ao longo do século XIX, especialmente no Vale do Paraíba e depois no interior paulista, a produção cafeeira impulsionou a construção de ferrovias, fortaleceu cidades e concentrou poder nas mãos de grandes produtores rurais. Ao mesmo tempo, a expansão desta indústria está diretamente ligada a processos de exploração, primeiro com a escravidão e, posteriormente, com a chegada de trabalhadores imigrantes.
Na China, o chá segue um caminho bem diferente. Com uma história milenar, ele se consolidou como um dos principais produtos de exportação do país por séculos, conectando o território a rotas comerciais globais, como a Rota da Seda. Mas, além da economia, o chá ocupa um espaço simbólico forte: está presente em práticas culturais e filosóficas, como as cerimônias tradicionais, associadas ao equilíbrio, à contemplação e a valores ligados ao budismo e ao taoismo. É uma relação que mistura consumo, ritual e identidade.
Mesmo com impactos globais parecidos, as rotas do café e do chá praticamente não se cruzaram, e isso tem a ver a forma como o mundo foi organizado ao longo dos séculos. O chá já circulava em rotas comerciais asiáticas muito antes da expansão europeia, integrado a redes como a Rota da Seda e ao comércio marítimo chinês.
Quando as potências europeias passaram a se interessar pelo produto, o controle desse mercado ficou concentrado em portos específicos e em relações comerciais bastante fechadas com a China, que por muito tempo limitou a entrada estrangeira e manteve o domínio sobre a produção.
O café, por outro lado, entrou no circuito global já dentro de uma lógica colonial. A produção em larga escala no Brasil se consolidou no século XIX voltada quase totalmente para exportação ao Ocidente, especialmente Europa e Estados Unidos. Ou seja, enquanto o chá seguia um fluxo majoritariamente asiático-europeu, o café operava em um eixo atlântico. Eram rotas diferentes, com centros econômicos distintos e interesses comerciais que não necessariamente se sobrepunham.
No mercado europeu, por exemplo, café e chá disputavam espaço como bebidas de consumo cotidiano, cada uma associada a hábitos sociais e contextos culturais específicos. O chá ganhou força em países como Inglaterra, ligado a rituais mais formais, enquanto o café se espalhou por cafeterias e espaços urbanos associados ao debate público e à vida política. Em vez de convergir, essas culturas acabaram se consolidando em paralelo.
Além disso, fatores geopolíticos ajudaram a manter essa separação. A China, durante séculos, adotou uma postura mais isolacionista em relação ao comércio exterior, enquanto o Brasil estava inserido em um sistema colonial e, depois, em uma economia agroexportadora dependente.
Não havia, portanto, um elo direto entre os dois polos produtores. Assim, mesmo conectando continentes e movimentando fortunas, café e chá acabaram seguindo caminhos distintos: duas rotas globais que moldaram o mundo, mas sem realmente se encontrar.
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