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Médica fala sobre relação entre álcool, café e dores crônicas

O consumo exagerado das substâncias compromete a qualidade do sono e a inflamação, criando ciclos viciosos de hipersensibilidade

Por Camila Santos | Metrópoles

O consumo excessivo e prolongado de cafeína e álcool apresenta efeitos complexos e bidirecionais sobre as dores crônicas, provocando impactos significativos no sono, na inflamação e na sensibilidade à dor. Embora doses moderadas de ambas as substâncias possam atuar com efeitos analgésicos agudos, o abuso crônico tende a exacerbar o sofrimento físico. De acordo com a médica anestesiologista e especialista em dor, Inácia Simões, esse comportamento prejudica o repouso e cria ciclos viciosos difíceis de interromper.

Entenda

  • Ciclos viciosos: o uso abusivo cria armadilhas biológicas. Na cafeína, a falta de sono aumenta a dor, gerando mais consumo para buscar alerta. No álcool, a dor motiva a automedicação, gerando tolerância e dependência.
  • Prejuízo severo ao sono: a cafeína prolonga o tempo para adormecer e reduz o tempo total de sono. O álcool, embora facilite o início do repouso, causa fragmentação e reduz o sono REM.
  • Paradoxo da dor: em doses moderadas, a cafeína e o álcool oferecem alívio analgésico agudo. Contudo, o consumo crônico e pesado de ambos aumenta a sensibilidade física (hiperalgesia) e a tolerância.
  • Fatores modificáveis: o manejo adequado da dor envolve a regulação do sono (7 a 9 horas), a prática de atividade física e o controle de peso, já que a obesidade atua de forma aditiva no agravamento dos sintomas.

A dor crônica é aquela que persiste por mais de três meses e continua mesmo após a recuperação do evento inicial que a causou

O impacto detalhado da cafeína

O consumo de doses elevadas de cafeína — definidas como quatro ou mais bebidas cafeinadas por dia, ou acima de 400 mg diários —, além do consumo tardio, provoca efeitos deletérios documentados sobre o sono. Segundo Inácia, dados demonstram que o excesso causa um aumento médio de 8,35 minutos no tempo para adormecer (latência do sono) e uma diminuição no tempo total de descanso que varia de 11 a 229 minutos (com média de 34,67 minutos), dependendo da dose.

De acordo com a médica, há ainda uma redução média de 4,74% na eficiência do sono e uma diminuição de 1,01% nas proporções do sono de ondas lentas, acompanhadas pelo aumento de despertares noturnos e do estágio 1 do sono. Adultos mais velhos demonstram maior sensibilidade a esses efeitos.

Na relação com a dor, o estimulante exibe uma dinâmica dose-dependente. O consumo habitual moderado (40 mg a 300 mg) associa-se a uma menor sensibilidade à dor experimental (maior limiar e tolerância térmica e pressórica). A adição de 100 mg a 130 mg de cafeína a analgésicos eleva de forma modesta o alívio. No entanto, o superconsumo crônico induz ou piora os sintomas, gerando tolerância, sem reduzir comportamentos de dor neuropática em modelos animais.

Os efeitos inflamatórios mostram grande variabilidade individual, independentemente de idade, sexo ou hábitos. A substância pode agir de forma anti-inflamatória (aumento de adiponectina com café filtrado e elevação da IL-10) ou pró-inflamatória (aumento de IL-6).

A complexidade da relação com o álcool

De acordo com a anestesiologista, aproximadamente 20% dos adultos nos Estados Unidos convivem com dor crônica, e muitos utilizam o álcool como automedicação. “A interação se divide em três eixos: o uso levando ao aumento da sensibilidade (hiperalgesia), o uso modulando a dor e a própria dor crônica agindo como fator de risco para recaídas alcoólicas”, ressalta.

Cerca de 0,08% de concentração alcoólica no sangue gera alívio agudo. “Porém, o consumo pesado exacerba a sensibilidade e está associado a 34% mais dias de interferência da dor. Na abstinência, ocorre a hiperalgesia acompanhada por estados emocionais negativos (hipercatifia), o que eleva a motivação para beber em busca de alívio, simulando o mecanismo dos opioides”, explica a médica.

No sono, a médica explica que o álcool causa fragmentação, redução do sono REM e despertares. Isso afeta o manejo clínico, uma vez que cada hora adicional dormida está associada a 14% de redução na interferência da dor. Inflamatoriamente, o consumo agudo reduz o TNF-α e eleva a IL-6 em bebedores pesados após 3 horas, enquanto o uso crônico causa condições dolorosas como neuropatias, pancreatite e lesões. Os mecanismos envolvem alterações em sistemas como GABA, glutamato, fator liberador de corticotropina, opioides endógenos e proteína quinase C.

Interações metabólicas e recomendações

Segundo a médica, estudos apontam que o consumo pesado de álcool e a obesidade possuem efeitos aditivos na interferência da dor, alcançando o máximo de dias de interferência quando as condições ocorrem juntas.

Para mitigar os riscos, as recomendações da especialista para o manejo da cafeína incluem limitar o consumo a no máximo 400 mg por dia (cerca de 4 xícaras de café), evitar a ingestão 6 horas antes de dormir e realizar descontinuação gradual para evitar cefaleia, fadiga e sintomas gripais. Restrições adicionais são indicadas para crianças, adolescentes, gestantes e pessoas com ansiedade.

Para o álcool, preconiza-se uma abordagem integrada que trate simultaneamente o Transtorno por Uso de Álcool (TUA) e a dor crônica. O cuidado coordenado une especialistas em dor e dependência, aplicando intervenções como fisioterapia, exercícios, terapias baseadas em aceitação, mindfulness e terapia cognitivo-comportamental. Algumas medicações para TUA também possuem potencial analgésico, e a redução efetiva da dor diminui o risco de retorno ao consumo pesado.

Como pilares protetores modificáveis, destacam-se a manutenção de 7 a 9 horas de sono qualificado, o controle de peso (já que a obesidade gera 50% mais dias de interferência da dor) e a prática de atividade física, que reduz esses dias em 10%.

Leonardo Assad

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