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Café e humor: a ciência explica se a bebida realmente faz bem ao cérebro

Por Maria Coelho, especial para a Gazeta do Povo

Estudo revela que o café pode estar atrelado ao bom humor. (Foto: Alexandr Istomin | Unsplash)

Um estudo publicado em 2025 na revista Scientific Reports, do grupo Nature, investigou como a cafeína influencia estados emocionais ao longo do dia, fora do laboratório, em situações reais da vida cotidiana. Os resultados ajudam a entender melhor a relação entre cafeína e humor, destacando benefícios, limites e fatores que modulam esse efeito.

Conduzida por Justin Hachenberger, Yu-Mei Li, Anu Realo e Sakari Lemola, a pesquisa contou com a participação de 236 jovens adultos com idade entre 18 a 29. Foram coletadas mais de 25 mil respostas em tempo real ao longo de 14 a 28 dias.

Assim, os participantes registravam várias vezes ao dia se haviam consumido cafeína nos últimos 90 minutos e como estavam se sentindo naquele momento.

Qual foi o resultado do estudo que relaciona humor e café?

O principal achado foi claro: o consumo recente de cafeína esteve associado a aumento do afeto positivo. Ou seja, após consumir bebidas com cafeína, os participantes relataram níveis mais altos de emoções positivas como entusiasmo, contentamento e felicidade.

Já a relação com emoções negativas (tristeza, preocupação, irritação) foi menos consistente. A redução do afeto negativo apareceu apenas em um dos dois estudos e com efeito menor.

De modo geral, os achados deste estudo sugerem que a cafeína pode desempenhar um papel importante na modulação dos estados afetivos na vida cotidiana.

Como a cafeína age no cérebro?

A cafeína é um estimulante do sistema nervoso central e é consumida em diversas formas, incluindo bebidas como café, chá, refrigerantes – por exemplo, cola – e bebidas energéticas, além de alimentos como chocolate.

De acordo com o estudo, os efeitos do café no cérebro estão ligados principalmente à ação da cafeína como antagonista da adenosina, um neurotransmissor que:

  • reduz a atividade do sistema nervoso central;
  • promove sensação de cansaço;
  • inibe a liberação de dopamina e noradrenalina;
  • desempenha um papel na etiologia de transtornos depressivos e de ansiedade.

Ao bloquear os receptores de adenosina, a cafeína aumenta a liberação desses neurotransmissores.

O efeito na redução da adenosina é igual ao longo do dia?

Não. O estudo publicado na Nature destacou a variação temporal do efeito. O aumento do afeto positivo foi mais forte nas primeiras 2,5 horas após acordar. Depois disso, o efeito diminui ao longo do dia e pode reaparecer discretamente à noite.

Isso sugere que o impacto da cafeína no humor depende do ritmo circadiano. Pela manhã, o organismo ainda está superando a chamada “inércia do sono”.

O estudo apontou uma melhora do humor quando o café é tomado pela manhã. (Foto: Helena Lopes | Unsplash)

A cafeína, ao bloquear a adenosina acumulada durante a noite, promove um “arranque” fisiológico mais evidente. Esse mecanismo explica a sensação de energia e motivação.

Quis fatores intensificam ou reduzem o efeito do café no humor?

O primeiro deles é o cansaço. O efeito foi mais forte quando a pessoa estava mais cansada que o habitual. Ou seja, quanto maior a fadiga, maior o ganho de afeto positivo após a cafeína.

Além disso, curiosamente o efeito foi menor quando a pessoa estava acompanhada. Isso sugere que o contexto social impacta o humor, reduzindo a percepção do efeito químico do café.

O café reduz a depressão e ansiedade?

As expectativas positivas relacionadas ao consumo de cafeína incluem redução do cansaço e da fadiga, melhora do desempenho cognitivo e físico e um deslocamento positivo do humor.

Mas o estudo não encontrou evidência de que o consumo momentâneo de cafeína reduza consistentemente emoções negativas.

De acordo com o médico Samir Macedo Semaan, residente de Infectologia no Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba, é preciso estabelecer a diferença entre o que o estudo chama de afeto (que é como nos sentimos em determinado momento), e os transtornos psiquiátricos (como a depressão e a ansiedade).

Segundo ele, a cafeína atua sobre os estados de humor imediatos, mas o tratamento de transtornos mentais envolve uma complexidade que vai muito além de uma substância isolada.

O especialista aponta que é preciso cuidado com a palavra “reduzir”. Isso porque o estudo foca no afeto positivo, que diz respeito à energia, entusiasmo e estado de alerta, e também no afeto negativo, que diz respeito à tristeza e  nervosismo.

O profissional explica ainda que, fisiologicamente, a cafeína bloqueia os receptores de adenosina, o que impede a sensação de cansaço e facilita a liberação de dopamina e noradrenalina. “O estudo conclui que o café é capaz de aumentar o afeto positivo, especialmente de manhã, mas não apresenta evidência de que o consumo momentâneo de cafeína reduza emoções negativas de forma sustentada”, enfatiza.

“Em alguns casos, pessoas com traços de ansiedade podem até sentir um aumento no nervosismo devido à superestimulação do sistema nervoso. Portanto, o café pode dar um ‘ânimo’ temporário, mas não deve ser encarado como um redutor clínico dessas condições”, complementa.

Quando o café pode piorar o humor?

Samir explica que o humor pode ser prejudicado pelo consumo de cafeína em dois casos: o primeiro deles é devido a superestimulação, ou seja, quando há consumo elevado ou até mesmo moderado, mas por pessoas sensíveis. “Nessa ocasião, a cafeína pode causar agitação psicomotora e ansiedade, o que é percebido como uma piora no estado de humor”.

A segunda situação é quando há um efeito rebote no sono, nas ocasiões em que a cafeína é consumida à tarde ou noite, alterando o ciclo do sono do paciente. “O sono é o principal regulador emocional do cérebro, uma noite mal dormida causada pelo consumo tardio, pode resultar em maior instabilidade e labilidade emocional, culminando na piora do humor”, alerta.

Em relação a quantidade, a pesquisa aponta que altas doses podem aumentar a ansiedade. “Embora o estudo não defina um número exato de xícaras para todos, uma vez que a metabolização varia, ele destaca que doses altas aumentam a ansiedade, e indivíduos já propensos a sintomas de ansiedade e depressão são particularmente sensíveis a esse efeito”, explica Samir.

É necessário ter moderação ao tomar café. (Foto: Alef Morais | Unsplash)

Os participantes consumiam cerca de 120 mg a 140 mg de cafeína por dia, o equivalente a aproximadamente uma a duas xícaras de café coado, com alguns chegando a mais de 800 mg. “O estudo reforça que, para quem busca benefícios no humor, o segredo não é a dose alta, mas sim o horário, já que o efeito positivo é muito mais forte nas primeiras 2,5 horas após acordar e diminui significativamente depois disso”, comenta.

O que especialistas indicam sobre café e saúde mental?

O estudo publicado na Scientific Reports conclui que a cafeína desempenha um papel relevante na modulação do afeto positivo no cotidiano, especialmente pela manhã e em estados de maior fadiga.

Contudo, o efeito é pequeno e não substitui intervenções clínicas, não atuando de forma consistente sobre emoções negativas.

O médico chama atenção para um indicador do estudo: o contexto social. “A cafeína apresenta relação com o humor por apresentar efeito positivo quando consumida em contextos sociais, o que sugere que a saúde mental se beneficia não apenas da substância química, mas da interação humana que muitas vezes acompanha o consumo”, ressalta.

Em síntese, a resposta para a pergunta “café melhora o humor?” é: sim, de forma leve e principalmente aumentando emoções positivas, especialmente nas primeiras horas do dia. Mas ele não é um antidepressivo, e seus efeitos variam conforme contexto, horário e padrão individual de consumo.

Para saúde mental sustentável, o café pode ser um coadjuvante, não o protagonista.

Dicas de consumo consciente do café

Com base nas evidências atuais, a recomendação é priorizar o consumo nas primeiras horas do dia, observar sua resposta individual, evitar a cafeína após às 17h e reduzir o consumo de café se você sofre de ansiedade.

“Eu sugeriria sincronizar o consumo com o relógio biológico de modo a aproveitar os efeitos positivos da cafeína pela manhã e potencializar o estado de alerta e o afeto positivo”, diz.

“Sugiro, ademais, que tenham autopercepção. Ao notar que o consumo aumenta o nervosismo ou que te causa palpitações, sua dose individual deve estar alta. O limite é particular, depende do metabolismo de cada organismo”, acrescenta.

Crianças menores de 12 anos também devem evitar o café. Já aquelas com idade entre 12 e 18 anos devem limitar o consumo.

Indivíduos que utilizam medicamentos estimulantes ou alguns psicotrópicos devem conversar com um profissional de saúde antes de manter ou aumentar o consumo de café, pois a associação pode potencializar reações adversas.

Da mesma forma, quem apresenta sintomas compatíveis com depressão deve buscar avaliação médica. E vale lembrar: até o momento, não existem evidências científicas que sustentem o uso do café ou de produtos com cafeína como forma eficaz de tratamento para a depressão.

Leonardo Assad

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