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Do plantio à xícara: agrofloresta e café orgânico mostram novos caminhos para o cultivo na Alta Mogiana

Equipe do EPTV nas Férias visitou duas propriedades na região de Franca (SP) que apostam em sistemas sustentáveis para produzir cafés especiais.

Por Júnia Vasconcelos, EPTV, g1 Ribeirão Preto e Franca

Agrofloresta e produção orgânica mostram diferentes formas de plantio sustentável de café na Alta Mogiana, região de Franca (SP) — Foto: Reprodução EPTV

O jeito de plantar café tem mudado em algumas áreas da Alta Mogiana, na região de Franca (SP). Em vez de lavouras formadas por uma única cultura, produtores têm apostado em sistemas que misturam espécies, recuperam o solo e buscam mais equilíbrio com o ambiente. Foi isso que a equipe do EPTV nas Férias encontrou em duas propriedades da região.

Em Patrocínio Paulista (SP), uma área antes degradada deu lugar a uma floresta produtiva, onde o café cresce junto de dezenas de outras plantas. Em Franca, uma fazenda centenária mantém quase meio milhão de pés de café cultivados exclusivamente de forma orgânica.

☕ Um novo jeito de plantar café

No Sítio Santa Terra, em Patrocínio Paulista, o café cresce em meio a dezenas de outras espécies. Ali, não há fileiras isoladas. O cultivo segue o modelo agroflorestal, que busca reproduzir os processos naturais de uma floresta.

Segundo o agricultor Anderson Arcanjoleto, o modelo se inspira em práticas ancestrais e na observação da natureza. O café, originário de regiões sombreadas da Etiópia, na África, se desenvolve melhor com luz filtrada e protegido por outras árvores.

“A agrofloresta já é praticada pelos povos originários há mais de 15 mil anos. A gente tenta replicar os processos naturais de uma floresta. Quando você olha uma floresta, não tem um indivíduo só. São vários tipos de plantas, tamanhos diferentes, flores, e tudo tem uma função dentro de um sistema. No nosso caso, o foco produtivo é o café.”

No Sítio Santa Terra, em Patrocínio Paulista (SP), o café é cultivado em meio a dezenas de espécies, em um sistema que reproduz os processos naturais de uma floresta — Foto: Reprodução EPTV

Na lavoura, banana, eucalipto, leguminosas, jatobá, jequitibá, guanandi, amora e pitanga convivem com os pés de café. Algumas espécies enriquecem o solo, outras ajudam a manter a umidade, criam sombra ou atraem organismos importantes para o equilíbrio do sistema.

Esse funcionamento em conjunto cria um ambiente que dispensa o uso de agrotóxicos, fertilizantes químicos e até irrigação.

“Plantando mais de uma espécie, o pequeno agricultor não depende só de uma produção. A gente começa uma safra sem comprar insumos”, explicou Anderson.

Segundo o produtor, 97% da colheita é classificada como café especial. Mesmo os lotes com menor pontuação atingem 84 pontos, acima da média exigida para cafés especiais.

O modelo diferenciado tem atraído turistas, estudantes e produtores. O sítio oferece visitas, vivências e cursos.

“A gente faz café na floresta, atividades para famílias, eventos para crianças e, principalmente, educação ambiental. Cada grupo tem uma vivência diferente. E com os cursos, outros produtores estão aplicando esse sistema. O sítio já não é só esse espaço físico”, explicou a agricultora Angélica Martins Fassirolli.

As visitas custam a partir de R$ 75 por pessoa e há pacotes para escolas. O curso de agrofloresta tem duração de quatro dias e custa R$ 880.

Bananeiras, árvores nativas e frutíferas dividem espaço com os pés de café e ajudam a criar microclimas e equilíbrio no cultivo — Foto: Reprodução EPTV

🌱 Café orgânico em larga escala

Em Franca, a cafeicultura sustentável aparece em outra escala: uma fazenda centenária que mantém uma das maiores áreas de café orgânico da região.

São 120 hectares e quase meio milhão de pés de café cultivados sem uso de agrotóxicos ou fertilizantes sintéticos.

Administrada por Gustavo Leonel, terceira geração da família, a propriedade produz cafés especiais sem uso de agrotóxicos, fertilizantes sintéticos ou sementes transgênicas. Para isso, passa por auditorias e certificações que garantem que toda a lavoura segue protocolos ambientais rigorosos.

“Uma fazenda para ela ser considerada produtora de café orgânico ela tem que passar por uma certificação e por uma auditoria. É você entender que esse pé de café nunca teve contato com agroquímico. Isso é sustentabilidade. É conservação de solo, de planta, de água.”

Fazenda centenária em Franca (SP) mantém quase meio milhão de pés de café cultivados de forma orgânica — Foto: Reprodução EPTV

Segundo ele, o cuidado com o solo, a água e a vegetação nativa sempre fez parte da história da fazenda, ainda antes da certificação oficial.

Hoje, o desafio é manter uma produção orgânica em larga escala, especialmente diante das variações climáticas.

🫘 Quando o grão se forma

Neste período, os pés de café estão na fase de enchimento dos grãos, etapa decisiva para o potencial da safra. A irrigação controlada e o uso de substratos orgânicos ajudam a manter a vitalidade das plantas.

“É nesse momento que a planta mostra vitalidade. A irrigação é fundamental, principalmente na agricultura orgânica. Sem água, não há sobrevivência.”

Gustavo Leonel, agrônomo e terceira geração da família, é responsável pela produção orgânica da fazenda centenária em Franca (SP) — Foto: Reprodução EPTV

A fazenda também integra a ‘Rota do Café’ e recebe visitantes interessados em conhecer todo o processo, do plantio à xícara. O passeio inclui lavoura, área de pós-colheita, terreiros, secagem, armazém e experiências sensoriais.

Durante a visita, turistas acompanham desde a secagem dos grãos até a degustação orientada, quando aprendem a identificar aromas, sabores e diferenças entre cafés do mesmo talhão.

“Café é a minha vida. É uma experiência sensacional. Depois que isso acontece na sua vida, dificilmente você consegue ficar sem”, aponta Gustavo.

Leonardo Assad

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