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Nova tecnologia rastreia cafés e evita adulterações

Embrapa valida uso do infravermelho para diferenciar origens e garantir autenticidade

Foto: Antonio Scarpinetti

Pesquisas conduzidas pela Embrapa Rondônia indicam que a espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) é capaz de identificar a origem geográfica do café e detectar adulterações de forma rápida, precisa e sem destruir a amostra. A tecnologia, já utilizada em outras cadeias agroindustriais, está em fase de validação para o setor cafeeiro e pode se tornar uma aliada estratégica no fortalecimento das indicações geográficas, certificações de qualidade e no combate a fraudes.

A técnica funciona a partir da interação da luz infravermelha com os compostos químicos do grão. Essa interação gera um espectro químico, considerado uma espécie de “impressão digital” do produto. A partir da comparação com bancos de dados e algoritmos previamente treinados, o sistema consegue identificar a origem do café e apontar a presença de adulterantes em poucos segundos.

“É uma tecnologia que permite identificar o terroir do café, chegando ao nível da área produtiva”, explica o pesquisador Enrique Alves, da Embrapa Rondônia.

Protótipo 3D; foto: Antonio Scarpinetti

O estudo foi desenvolvido ao longo de cinco anos como parte do doutorado de Michel Baqueta, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com a Embrapa Rondônia. A pesquisa combinou a espectroscopia NIR com análises quimiométricas, que utilizam métodos matemáticos e estatísticos para interpretar dados químicos complexos.

Os resultados permitiram diferenciar cafés canéforas (Coffea canephora) cultivados em distintas regiões e solos, separando, por exemplo, os cafés robustas amazônicos — incluindo variedades indígenas — dos conilons produzidos no Espírito Santo e na Bahia. A metodologia também demonstrou capacidade de identificar adulterações com materiais como milho, soja, casca, borra e sementes de açaí, apontadas pelos pesquisadores como um tipo emergente de fraude no mercado.

Foto: Michel Rocha Baqueta

Segundo Baqueta, a tecnologia se mostra especialmente relevante em um cenário de preços elevados do café. “Se houver contaminante ou mistura de grãos, a curva espectral muda e conseguimos confirmar a adulteração”, afirma. A técnica também permite identificar misturas de cafés de diferentes origens em um mesmo lote.

Além da aplicação no café, a espectroscopia NIR pode ser utilizada em outras cadeias agroalimentares, como cacau, soja, leite, frutas e vinhos, ampliando o controle de qualidade e a rastreabilidade dos produtos agropecuários brasileiros.

Foto: Michel Rocha Baqueta

Outro diferencial da tecnologia é a rapidez. Enquanto análises laboratoriais convencionais podem levar horas ou até dias, a leitura por NIR fornece resultados quase instantâneos, sem uso de reagentes químicos e com baixo custo operacional. O método também não destrói a amostra e pode ser aplicado em grãos crus, torrados ou moídos, inclusive com equipamentos portáteis.

Para os pesquisadores, a validação científica da técnica pode facilitar o reconhecimento técnico e mercadológico de cafés de origem, especialmente os cafés indígenas amazônicos, agregando valor econômico e simbólico ao produto. “A confirmação de origem e autenticidade amplia o acesso a mercados de cafés especiais e fortalece a identidade territorial”, avalia Alves.

A equipe da Embrapa Rondônia pretende ampliar o uso da NIR no banco de germoplasma da instituição, que reúne cerca de mil acessos de café. O objetivo é identificar perfis químicos associados a características como teor de cafeína e minerais, acelerando o melhoramento genético e reforçando a imagem de qualidade do café brasileiro.

Embora o investimento inicial em equipamentos ainda seja um desafio, os pesquisadores destacam a viabilidade do uso coletivo por cooperativas, associações e certificadoras. A expectativa é que, com a ampliação do banco de dados e a validação dos modelos, a espectroscopia NIR se consolide como referência nacional em autenticação, rastreabilidade e certificação de origem do café.

Fonte: Revista Cultivar

Leonardo Assad

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