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CAFÉ: Santos expõe um mercado global em transformação | por Celso Vegro

25º Seminário Internacional do Café de Santos  
Temas discutidos no terceiro dia de trabalhos

Em 21/05/2026 as 09:30hs teve início o evento com a mesa que discutiu aspectos regulatórios do mercado de café sendo composta por Marcos Matos (CECAFE) Bill Murray (NCA), Augusto Billy (MAPA) e Kevin Lardner (Rainforest Alliance). O representante do CECAFE introduziu o tema pontuando o momento de fragmentação vivenciado pela economia global, destacado especialmente pela imposição de tarifas protecionistas pelos estadunidenses. Imediatamente passa a palavra para o representante da NCA que foi enfático a afirmar que está no DNA do governo trumpista a imposição de tarifas. Mesmo sob impugnação pela suprema corte do país, declarando-as ilegais e exigindo o estorno dos valores cobrados, imediatamente se criou outra tarifa de 10% sobre todas as mercadorias ingressantes naquele mercado. Assim que essa tarifa deixar de vigorar (julho/26) outro mecanismo assumirá seu lugar. Os representantes do negócio café no país tentam demonstrar para seus representantes no parlamento a singularidade do produto café como forma de mantê-lo livre de novas cobranças. Educação do consumidor é crucial, pois muitos desconhecem que o produto tem origem no Brasil. Ademais, o problema inflacionário causado pelas tarifas tem incomodado sobremaneira os consumidores. Encerrando sua preleção, o representante do CECAFE repassa a palavra para o membro do MAPA que ressaltou a importância de se saber o jogo que se vai jogar. Havia a possibilidade de retaliar as tarifas aplicadas ao Brasil por parte dos EUA, mas o caminho escolhido foi o da diplomacia e da busca de diversificação de destinos dos produtos brasileiros. Em ambas as estratégias foram obtidos grandes êxitos para o comércio internacional do país. Ao invés do caminho da demonstração técnica do equívoco de se taxar o Brasil, optou-se pelo posicionamento político onde agressões ao Brasil empurrariam o país para o colo dos chineses. Esse posicionamento foi decisivo na reversão do tarifaço. Também, mencionou a imposição da EUDR europeia em que se escolheu a imposição ao invés do diálogo. Em 2025, foram obtidas importantes reduções no desmatamento o que demonstra que o país tem amplas condições de gerir o assunto sem a ingerência estrangeira. Para encerrar o debate o representante da Rain Forest mostrou-se otimista com a EUDR pois as revisões efetuadas pela autoridade europeia acolheram posicionamentos da entidade, simplificando e diminuindo os custos da compliance do processo. A própria certificação efetuou adaptações para se alinhar ao regulamento europeu. Com essas falas o representante do CECAFE foi enfático a destacar a manutenção do tarifaço sobre o solúvel brasileiro e uma maior divulgação da importância do produto na composição dos blends do país. O representante da NCA lembrou um levantamento que demonstrou que o café responde a apenas 1% do desmatamento que ocorre no mundo, portanto é uma lavoura que preserva e não destrói a natureza. Acredita ainda que o Brasil precisa ligar a cultura e imagem do café aos ícones que o representam como a Amazônia e o Pelé por exemplo. Por fim enalteceu a excelente parceria com o CECAFE no enfrentamento desse grande entrave para os negócios.

Em continuidade ao seminário o representante da Centro Naves foi convidado a explanar sobre a infraestrutura disponível para o comércio exterior brasileiro. O assunto envolve imensa complexidade e é permeado por carência de concertação entre os diversos interesses que atuam nesse ambiente de negócios. O interlocutor crê que o Brasil está ao menos 4 gerações em termos de capacidade para receber cargueiros. Cerca de 45% dos novos navios que estão em construção não tem possibilidades de acessar a maior parte dos portos brasileiros, inclusive o de Santos. Com isso o aumento de custos com cargas em navios de menor capacidade é monumental. Estimou que apenas um metro e meio a menos no calado santista representa perda de US$20 bilhões em transações comerciais o que acaba se refletindo em maior custo aos consumidores. O investimento em infraestrutura é inescapável e adiá-los significa prejuízos para toda a cadeia.

Para encerrar a manhã do terceiro dia subiu ao palco o escritor e economista Eduardo Gianetti que conduziu sua preleção pautando o esgotamento da hiperglobalização e as oportunidades do Brasil nesse contexto. Após uma longa digressão sobre a origem da globalização, sua derrocada (duas grandes guerras) e seu retorno nos governos Thatcher e Regan, seguiu-se nova crise (financeira de 2008/09, COVID de 2019/20, conflitos bélicos, tarifaço e colapso energético), inicia-se um novo momento da economia mundial em que os antigos critérios de rentabilidade e escala de produção não são mais decisivos na destinação dos investimentos privados, prevalecendo critérios como situação geopolítica bem resolvida, dotação de recursos naturais, oferta de energia e alimentos, presença de minerais críticos e financeirização sob supervisão, formam elementos que posicionam o Brasil com capacidades de recuperar o tempo perdido (refém da armadilha da renda média – 3,0% do PIB mundial e 1,0% do comércio internacional). O momento permite ao Brasil atuar em três frentes que prometem resgatar o país da armadilha: incremento das exportações de manufaturados; fortalecimento dos serviços para operadores internacionais/nacionais e do turismo e, ainda, agregação de valor às commodities (inclusive ao café) como por exemplo a atração de investidores que transfiram a tecnologia para o refinamento de minerais críticos. O Brasil pode explorar essas três dimensões. Estamos bem-posicionados, mas é preciso fazer o trabalho de casa com formação de capital humano e mais segurança jurídica.

Após o almoço tiveram início as palestras da tarde do terceiro dia, quando os debates passaram a se concentrar nas perspectivas de oferta e demanda mundial de café. O painel “Supply & Demand” reuniu Claudio Delposte (Rabobank) e Oscar Schaps (StoneX), que discutiram o atual cenário de produção, estoques e consumo mundial. Os participantes ressaltaram que o mercado segue operando em ambiente de elevada sensibilidade climática e logística, mantendo volatilidade significativa nos preços internacionais e grande atenção sobre o comportamento das próximas safras nos principais países produtores.

Os debates também passaram por temas relacionados à tecnologia, inovação e tendências de mercado dentro da cadeia cafeeira mundial. Guilherme Post Sabin (OpenScience) apresentou aplicações envolvendo ciência de dados e tecnologias voltadas ao agronegócio e à indústria de alimentos, reforçando o avanço das ferramentas digitais no processo de avaliação e tomada de decisão dentro do setor cafeeiro.

Encerrando os trabalhos do dia, as discussões avançaram sobre os desafios operacionais e comerciais do mercado internacional de café em um cenário de custos logísticos elevados, maior pressão regulatória e necessidade crescente de eficiência nas cadeias globais de abastecimento. Também foram discutidas as incertezas econômicas, climáticas e geopolíticas que continuam influenciando diretamente o comportamento do setor cafeeiro mundial.

Leonardo Assad

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