Modelos climáticos indicam possível evento de intensidade moderada a forte até o início de 2027
Por Henrique Rodarte | Agro em Campo
Foto: Rodarte/Agro em Campo
O mercado global de café entra no radar climático de 2026 com a crescente probabilidade de formação de um El Niño nos próximos meses. A NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), agência americana de monitoramento climático, aponta cerca de 60% de chance de o fenômeno ocorrer entre maio e julho. Modelos do IRI (International Research Institute for Climate and Society), ligado à Universidade de Columbia, confirmam probabilidade semelhante no curto prazo e apontam para a continuidade do evento até o final de 2026 e início de 2027.
Os modelos não projetam aumento da temperatura global, mas indicam temperaturas acima da média no Oceano Pacífico. Um padrão que sugere um evento de maior intensidade. Esse comportamento pode elevar as temperaturas em diferentes regiões produtoras e ampliar os riscos para a agricultura. “As commodities agrícolas poderão enfrentar riscos climáticos mais elevados”, afirma Laleska Moda, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets.
As previsões de anomalias da temperatura da superfície do mar (SST) para a região Niño 3.4 mostram um aumento acentuado no final do ano. As médias dos modelos apontam valores acima de 1,5°C entre outubro e novembro de 2026. Um indicativo de um evento mais forte do que o inicialmente previsto. Para a confirmação oficial do fenômeno, as temperaturas precisam permanecer acima de +0,5°C por períodos consecutivos.
Projeções recentes apontam probabilidades semelhantes para cenários de El Niño moderado, forte e muito forte a partir do final de 2026.
Um El Niño ativo que persista até o início de 2027 pode trazer temperaturas recordes, secas e inundações em diversas regiões, aumentando os riscos para a produção agrícola global. Para o café, o fenômeno representa um desafio direto ao desenvolvimento da safra 26/27 em áreas produtoras estratégicas na América Central e do Sul, no Sudeste Asiático e na África Oriental. “Períodos prolongados de calor também podem prejudicar o desenvolvimento da planta”, completa Moda.
Na América Central, o El Niño tende a elevar as temperaturas médias e reduzir as precipitações, especialmente entre julho e agosto. Um período crítico para o desenvolvimento dos frutos da safra 26/27. Guatemala, Honduras e El Salvador concentram o maior risco regional.
Na Colômbia, temperaturas mais altas e irregularidades nas chuvas durante o segundo semestre podem afetar a safra principal 26/27. Um evento mais forte ou prolongado até 2027 também ameaça a safra intermediária, conhecida como mitaca.
Na África Oriental, os efeitos variam por país. Na Etiópia, o fenômeno pode reduzir as chuvas entre junho e setembro e provocar excesso de precipitação na sequência, prejudicando a colheita. Em Uganda, o padrão associado ao El Niño costuma aumentar as chuvas acima da média, elevando o risco de inundações e deslizamentos.
No Sudeste Asiático e na Índia, o fenômeno tende a provocar condições mais secas e quentes. A Índia pode enfrentar uma estação de monções mais fraca, enquanto Indonésia e Vietnã devem sentir impactos principalmente no desenvolvimento das safras futuras. E especialmente se o evento se estender até 2027.
No Brasil, o El Niño pode reduzir o risco de geadas durante o inverno de 2026, o que, à primeira vista, representa uma notícia positiva para os cafeicultores. No entanto, o fenômeno pode atrasar o início das chuvas de primavera e trazer temperaturas mais elevadas durante a floração e o enchimento dos grãos da safra 27/28.
Mesmo com expectativa de safra recorde em 2026/27, o que tende a pressionar os preços no curto prazo , o cenário climático limita movimentos mais acentuados de queda. “Os possíveis impactos do El Niño poderiam limitar correções mais profundas do mercado no final do ano”, afirma Moda.
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