Exposição no Jardim Botânico de Sorocaba aprofunda diálogo com a Bienal de Veneza e propõe uma pausa contemplativa ao público
Por Caroline Mendes | Jornal Cruzeiro
Inspirada no conceito ‘In Minor Keys’, exposição dialoga com a proposta da curadora Koyo Kouoh, que propôs uma abordagem baseada nas chamadas frequências sensíveis (Crédito: CAROLINE MENDES)
Mais do que uma exposição de arte, “Tom Menor: um mergulho no café” se constrói como uma experiência sensorial e afetiva que convida o público a desacelerar e revisitar memórias por meio de elementos cotidianos. Em cartaz no Jardim Botânico Irmãos Villas-Bôas, a mostra reúne trabalhos das artistas Cibele Pilla, Julia Pilla e Lucia Gadian, em um projeto que articula arte, história e subjetividade.
Inspirada no conceito “In Minor Keys”, tema da Bienal de Veneza, a exposição dialoga com a proposta da curadora Koyo Kouoh, que propôs uma abordagem baseada nas chamadas “frequências sensíveis”, uma metáfora musical associada a tons menores, mais introspectivos e silenciosos. Mesmo após sua morte, em 2025, o projeto foi mantido, reforçando a potência de sua visão curatorial.
Esse conceito ganha forma nas obras por meio de escolhas materiais e processos criativos que exigem tempo, escuta e concentração. Segundo o curador Oscar D’Ambrosio, a exposição evidencia como o fazer artístico pode ser um exercício de percepção e refinamento sensível. “Trata-se de pensar a arte como um espaço de elaboração, não apenas estética, mas também emocional e cultural”, aponta.
O café, elemento central da mostra, é explorado em múltiplas camadas. Para além da bebida, ele aparece como símbolo econômico, histórico e social, desde sua origem na Etiópia até sua consolidação como produto-chave na formação do Brasil.
Mas é no campo da memória que o tema ganha maior densidade. “O café está presente em todos os momentos da vida. Ele acompanha conversas, decisões, encontros e até silêncios”, afirma Cibele Pilla. A artista explica que a escolha do tema surgiu justamente dessa relação íntima e cotidiana. “Pensamos no que, dentro da nossa casa, carregava esse ‘tom menor’. E o café veio com toda essa carga afetiva.”
A partir daí, o processo criativo se desenvolveu com base em objetos pessoais — xícaras, cafeteiras, utensílios domésticos — que foram fotografados, reinterpretados e incorporados às obras. Há também trabalhos produzidos com embalagens descartadas, tecidos, aquarela e teares, em uma construção que mistura técnicas tradicionais e experimentação contemporânea.
Processo de criação
Um dos pontos centrais da exposição é justamente o processo de criação, que reflete a proposta de introspecção. Técnicas como aquarela e tear exigem concentração e tempo, elementos que dialogam diretamente com a ideia de “tom menor”. “A aquarela, por exemplo, pede um movimento mais interno, mais delicado. O tear também exige silêncio, escolha cuidadosa das cores. Tudo isso faz parte desse estado de introspecção”, explica Cibele. Mesmo nas obras de grande formato, o processo permanece íntimo. “Você precisa estar ali, presente, concentrada. É quase um estado meditativo”, completa.
A música também aparece como elemento estruturante. Cibele revela que cria suas obras sempre acompanhada por trilhas sonoras, que influenciam diretamente o ritmo e a construção visual dos trabalhos. “A música traz memórias, emoções, e isso acaba entrando na obra. Os ritmos, as pausas, os silêncios, tudo conversa com o que está sendo criado.”
Herança cultural
Na produção de Lucia Gadian, o café assume ainda uma dimensão cultural e espiritual. Descendente de armênios, a artista resgata a tradição da leitura da borra de café, prática comum em sua família. “Desde criança, a gente vivia esse ritual. Preparava o café, virava a xícara e interpretava os desenhos que se formavam. Quando surgiu o tema, foi uma conexão imediata”, conta.
Essa referência se traduz em obras que exploram desenho, impressão e pintura em seda, com técnicas que envolvem tingimento e fixação a vapor. O resultado são peças delicadas, que remetem tanto à materialidade do café quanto às imagens simbólicas que ele pode gerar. “O que eu busco é provocar emoção. Que as pessoas se conectem com as obras de forma sensível, como aconteceu comigo durante o processo”, afirma.
Resistência
Em um contexto marcado pela velocidade e pelo excesso de estímulos, a proposta da exposição ganha ainda mais relevância. Para as artistas, trabalhar com o “tom menor” é também uma forma de resistência. “Hoje tudo é muito rápido. A gente perde o tempo de observar, de sentir. A exposição vem justamente para isso: criar um espaço de pausa”, diz Cibele.
Lucia reforça: “As pessoas precisam parar, respirar, olhar com mais atenção. A arte pode proporcionar esse momento de reconexão”. Essa intenção se reflete também na forma como a mostra é organizada. O visitante é convidado a percorrer o espaço com calma, observando detalhes, texturas e narrativas que se revelam aos poucos.
A abertura oficial da exposição será hoje (12), às 15h, com uma programação que amplia a experiência artística. Além da apresentação musical ao vivo, o público poderá participar de uma degustação de café e acompanhar o plantio simbólico de mudas no próprio Jardim Botânico, ação que reforça o vínculo entre arte, natureza e território. A mostra também se desdobra em atividades formativas, como oficinas artísticas na Biblioteca Municipal, ampliando o acesso e o diálogo com diferentes públicos.
Com caráter itinerante, “Tom Menor” seguirá para outras cidades ao longo do ano, incluindo Embu das Artes, Iperó (Floresta Nacional de Ipanema), Itapecerica da Serra e Campinas. Na Universidade Estadual de Campinas, a exposição integrará um evento internacional sobre café e chá, em parceria com instituições como a Universidade Federal de Minas Gerais.
Ao transformar o café em linguagem artística, a exposição propõe um olhar ampliado sobre o cotidiano, onde objetos simples se tornam portadores de memória, identidade e sensibilidade. Mais do que ver, “Tom Menor” convida o público a sentir.
https://www.youtube.com/watch?v=BshWA1fSbG8 Fonte: REDEMAISHD
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