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Oferta e demanda ainda desalinhadas: O café pode deixar de ser um produto “previsível”?

Entre clima, oferta apertada e preços em alta, o grão mais consumido do Brasil começa a dar sinais de que pode seguir o mesmo caminho de outras commodities que ficaram instáveis

O café sempre foi presença certa. No campo, no mercado, na rotina de quem planta e de quem consome. Mas essa previsibilidade começa a dar sinais de desgaste.

Nos últimos anos, o grão entrou em uma combinação que costuma mudar o rumo de qualquer commodity: clima instável, oferta pressionada e preços reagindo de forma mais intensa do que o habitual.

Dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) indicam que a produção global de café deve crescer, puxada principalmente por Brasil e Vietnã. Ainda assim, os estoques finais seguem em níveis historicamente apertados, o que mantém o mercado mais exposto a qualquer problema na oferta.

Na prática, isso significa um equilíbrio mais frágil. Mesmo com safra maior, não há folga suficiente para absorver choques, o que aumenta a sensibilidade dos preços. Essa pressão não vem só do lado da oferta, mas também do clima.

Levantamentos recentes sobre mudanças climáticas mostram que os dias de calor extremo estão se tornando mais frequentes justamente nas principais regiões produtoras, como Brasil e Colômbia. Esse aumento de temperatura afeta diretamente o desenvolvimento das plantas, reduz o potencial produtivo e amplia a incerteza sobre o tamanho das safras.Com isso, o risco deixa de ser pontual e passa a fazer parte da dinâmica do mercado.

E risco, no café, aparece rápido no preço.

As cotações internacionais reagiram com força diante de problemas climáticos recentes em países produtores, refletindo um mercado mais sensível e com menor margem de segurança entre oferta e demanda.

Esse movimento reacende uma comparação que, até pouco tempo, parecia distante. Assim como aconteceu com o cacau e a baunilha, o café começa a reunir fatores que tiram a previsibilidade da equação. A produção global é concentrada em poucos países, a expansão de área é limitada e o clima tem impacto direto e cada vez mais frequente.

E é aí que o Brasil entra no centro dessa história.

Maior produtor e exportador do mundo, o país tem peso direto na formação dos preços internacionais. Qualquer quebra ou frustração de safra brasileira tende a ter efeito imediato nas cotações globais.

Só que nem o Brasil está imune.

Eventos recentes de seca, calor acima da média e irregularidade de chuvas já vêm alterando o comportamento das lavouras em regiões tradicionais. Em resposta, produtores começam a intensificar o uso de irrigação, ajustar o manejo e, em alguns casos, buscar áreas de maior altitude para manter a produtividade.

Esse movimento não é isolado e começa a redesenhar a produção.

O café deixa de ser apenas uma commodity de ciclo relativamente conhecido e passa a responder com mais intensidade a choques pontuais. Para quem negocia, isso significa mais volatilidade. Para quem produz, mais risco. Para quem consome, menos previsibilidade.

E existe um ponto que ainda está em aberto.

Diferente de culturas que já passaram por esse processo, o café ainda conta com escala produtiva relevante e com o peso de países como o Brasil sustentando grande parte da oferta global. Isso pode funcionar como um freio para mudanças mais bruscas no curto prazo.

Mas os sinais estão postos.

O café pode não deixar de ser acessível ou presente no dia a dia. Mas tudo indica que está deixando de ser previsível.

Por: Priscila Alves / Instragram: @priscilaalvestv

Fonte: Notícias Agrícolas

Leonardo Assad

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