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Cientistas brasileiros buscam em espécies ‘selvagens’ café resistente às mudanças climáticas

Com apenas 25 anos para evitar a perda de áreas produtivas, pesquisadores brasileiros cruzam o grão Arábica com espécies rústicas como Liberica e Racemosa

Diferentes variedades de café são exibidas no Instituto Agronômico de Campinas (IAC) durante uma entrevista com pesquisadores brasileiros em Campinas, Brasil, 15 de setembro de 2025. REUTERS/Alexandre Meneghini

Sob um sol escaldante, o agrônomo Oliveiro Guerreiro Filho percorre uma miscelânea de plantas de café no Instituto Agronômico de Campinas, onde, ao contrário das fileiras uniformes da maioria das fazendas de café brasileiras, cada cacho é diferente do outro.

Esse zoológico de espécies de café — algumas atarracadas, outras altas — inclui 15 espécies incomuns e não comerciais, como racemosa, liberica e stenophylla, cujos genes poderiam sustentar os suprimentos futuros de café arábica, esperam os pesquisadores.

Cientistas alertam que as colheitas de arábica, o grão de café mais comum do mundo, serão gravemente afetadas por um clima em rápida mudança, com a expectativa de que a produção de países como o Brasil, o maior produtor mundial, diminua.

As mudanças climáticas poderão tornar 20% das áreas que atualmente cultivam o arábica globalmente inadequadas para o cultivo de café até 2050, segundo um relatório do Rabobank, instituição financeira, divulgado esta semana.

Com a introdução de material genético de espécies de café mais rústicas em novos híbridos, os cientistas do instituto de pesquisa do Estado de São Paulo pretendem criar variedades de arábica mais resistentes.

Cafés resistentes

Por exemplo, a robustez do liberica diante de condições mais quentes e secas foi elogiada por fazendeiros da Indonésia e da Malásia que plantaram pequenos lotes da espécie para ver como ela se comporta diante da seca.

“A Liberica tolera muito bem o calor e as altas temperaturas, além de ser resistente a doenças”, disse à Reuters Jason Liew, fundador da My Liberica, uma plantação de café no Estado de Johor, na Malásia.

Embora agricultores valorizem essas qualidades entre as espécies menos comuns, os pesquisadores brasileiros se especializaram em trazer essas características para as plantas arábicas mais produtivas e populares.

“Estamos trabalhando no instituto há muitos anos para transferir genes de tolerância à seca da espécie racemosa para a arábica”, disse Guerreiro Filho. “Estamos tentando criar variedades de arábica tolerantes à seca.”

Isso pode levar décadas de pesquisa. Os cientistas precisam produzir mudas cruzadas e expor essas variedades híbridas a condições adversas para avaliar e identificar as plantas mais robustas, disse ele, um processo que pode levar de 20 a 30 anos.

Os híbridos também são testados para aumentar a resistência a pragas e doenças, além de melhorar a qualidade. O arábica cruzado com o liberica se mostrou mais resistente à ferrugem do café, uma infecção fúngica, por exemplo, enquanto o arábica cruzado com o racemosa se sai melhor contra o bicho-mineiro, principal praga da cafeicultura, observou Guerreiro Filho.

Isso faz com que pesquisas como as que estão sendo realizadas no instituto sejam fundamentais para o futuro do café, disse Rodolfo Oliveira, chefe da unidade de café da Embrapa, agência de pesquisa estatal brasileira.

“Trabalhar com espécies alternativas de café… é vital porque o arábica tem uma base genética extremamente estreita, o que o torna altamente vulnerável a pragas, doenças e mudanças climáticas”, disse Oliveira, ressaltando o valor da introdução de material genético novo e “selvagem” de espécies menos comuns.

Fonte: Dinheiro Rural

Leonardo Assad

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