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Café raro cultivado no Brasil alcança R$ 90 mil por saca e mira mercado de luxo

Luiz Paulo Dias Pereira Filho aposta no cultivo comercial do Coffea eugenioides, espécie rara que atrai compradores internacionais e pode reposicionar o Brasil no segmento mais exclusivo do café

Por Redação Conexão Safra

Foto: Freepik

A cafeicultura brasileira, historicamente associada à inovação e ao protagonismo no mercado global, passa a abrir uma nova frente no segmento de alto luxo com o avanço do cultivo comercial do Coffea eugenioides. A aposta é liderada por Luiz Paulo Dias Pereira Filho, reconhecido pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) como a primeira lenda do café especial do Brasil e um dos seis nomes com esse reconhecimento no mundo pela Alliance for Coffee Excellence (ACE).

Na Fazenda Rarus, em Carmo de Minas, no Sul de Minas Gerais, Luiz Paulo vem conduzindo há uma década experimentos com a espécie, considerada rara e ainda pouco explorada comercialmente. Segundo ele, o Brasil começa a assumir protagonismo nesse nicho ao investir em um café de baixíssima escala produtiva, mas de alto valor agregado. “O Brasil está assumindo a bandeira da espécie eugenioides, extremamente rara e, até então, sem foco comercial. Não há cinco propriedades no planeta que cultivam esse café, pois demanda um trabalho minucioso e sua produtividade é de duas sacas por hectare”, afirma.

De acordo com o produtor, a característica da bebida e a escassez global explicam o interesse crescente de compradores internacionais. Hoje, ele cultiva cinco hectares da espécie e projeta colher 10 sacas neste ano. Após anos de testes, o café começou a ser colocado no mercado de forma comercial há três anos. Desde então, segundo Luiz Paulo, toda a produção tem sido absorvida por importadores de mercados como Taiwan, Dubai e Arábia Saudita.

O preço fixado também chama atenção. Cada saca de 60 quilos é vendida por R$ 90 mil, patamar incomum mesmo entre cafés de altíssima qualidade. “Após os experimentos, comercialmente coloquei esses cafés no mercado há três anos e foi espantosa a procura. A um preço fixo de R$ 90 mil por saca, tenho vendido a produção a importadores de Taiwan, Dubai, Arábia Saudita e o interesse só cresce”, relata.

Segundo Luiz Paulo, o Coffea eugenioides reúne atributos sensoriais que ajudam a explicar a valorização. A bebida apresenta baixo teor de cafeína, doçura elevada e perfil cítrico, características que a colocam em posição diferenciada entre cafés especiais. A raridade da espécie reforça esse apelo em um mercado que busca exclusividade e identidade.

A relevância do eugenioides também aparece na pesquisa científica. Estudo do Instituto Agronômico (IAC), realizado no âmbito do Consórcio Pesquisa Café e publicado na revista BMC Plant Biology, identificou que boa parte dos genes expressos no café arábica parece ter origem no Coffea eugenioides. Segundo o levantamento, genes ligados à produção de açúcares encontrados nessa espécie ajudam a explicar atributos associados à qualidade da bebida do arábica, uma das variedades mais cultivadas e valorizadas no mundo.

Para Luiz Paulo, esse conjunto de fatores transforma a espécie em uma oportunidade estratégica para o Brasil. A proposta do chamado Projeto Rarus é posicionar o país como referência mundial na produção de eugenioides. “Vamos colocar o Brasil no topo do mercado de luxo do café, trazendo mais holofotes ao país, que ganhará com essa bandeira dos eugenioides sem concorrentes no processo”, diz.

O produtor afirma que o interesse já alcança restaurantes e compradores de alto padrão na Europa. Entre os contatos recentes, ele cita um cliente de Paris interessado na safra para reforçar a busca pela terceira estrela Michelin de seu restaurante. A sinalização mostra que o café começa a circular em ambientes onde origem, raridade e experiência sensorial têm peso decisivo.

Ao defender o potencial comercial da espécie, Luiz Paulo faz uma distinção entre cafés premiados e o modelo de negócio que busca construir. Segundo ele, o valor não está ligado a uma premiação pontual, mas ao produto em si e à consistência da demanda ao longo dos anos. “Não estamos falando de um café de concurso, mas sim do café em si, que comercializamos por esses R$ 90 mil a preço fixo. Nessa década de experimentos, tudo que produzi o mercado consumiu”, afirma.

O avanço do Coffea eugenioides em escala comercial ainda é restrito, mas a iniciativa conduzida em Carmo de Minas coloca o Brasil diante de uma nova vitrine no mercado global. Em vez de disputar apenas volume ou qualidade já reconhecida, o país passa a testar espaço em um segmento em que raridade, exclusividade e valor simbólico caminham junto com a xícara.

Leonardo Assad

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