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Café solúvel, uva, mel e pescados brasileiros podem ser impactados por derrubada do tarifaço de Trump; entenda

Produtos não foram contemplados por anúncios anteriores do governo americano que isentaram algumas mercadorias das taxas de 10% e 40%.

Por Paula SalatiVivian Souza | g1

Produtos brasileiros como o café solúvel, a uva, o mel e os pescados podem ser beneficiados pela decisão da Suprema Corte dos EUA de suspender o tarifaço imposto por Trump. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (20).

Os produtos não foram contemplados pelas duas decisões anteriores do governo americano.

Elas isentaram as principais exportações do agronegócio para os Estados Unidos, como o café em grão e a carne bovina, que são, respectivamente, o segundo e o terceiro itens mais vendidos pelo setor aos EUA, atrás dos produtos florestais.

Os produtos que não foram contemplados pela isenção da tarifa adicional de 40% correspondem a 45% do valor que foi exportado em 2024, segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

A primeira medida aconteceu no dia 14 de novembro e retirou a tarifa recíproca de 10%, imposta em abril, para cerca de 200 produtos alimentícios de diversos países.

A segunda, no dia 20 do mesmo mês, foi direcionada ao Brasil, e suspendeu a sobretaxa de 40%, anunciada em julho, para mais de 200 produtos, que foram acrescentados à lista anterior de quase 700 exceções ao tarifaço.

Apesar de o café solúvel, a uva, os pescados e o mel não terem o mesmo peso que o café em grão e a carne bovina no total das exportações do agro, são setores que têm os EUA como um mercado relevante para a sua atividade.

Após o anúncio da Suprema Corte, o g1 procurou a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.

Associação Brasileira dos produtores e exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) falaram que ainda estão buscando mais informações para entender a medida.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) disse que não vai se pronunciar no momento.

A seguir, veja a situação de cada um deles com o tarifaço.

Café solúvel

Em 2024, as vendas de solúvel para os EUA representaram 10% de toda a exportação da indústria brasileira de café. O restante da exportação é de café em grão que já foi isenta da tarifa.

O café solúvel brasileiro sempre teve uma forte presença nos supermercados dos EUA, segundo o diretor-executivo da Abics, Aguinaldo Lima, em entrevista ao g1 em novembro.

No ano passado, por exemplo, 38% do que os americanos importaram teve origem no Brasil, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA, citados por Lima.

As exportações brasileiras para o país começaram nos anos de 1960 e, desde então, os americanos se mantiveram como o principal destino do solúvel nacional, o que mudou após o tarifaço.

“A Rússia, que tradicionalmente sempre foi o segundo colocado, passou para primeiro. Algo inédito”, diz Lima, detalhando que isso aconteceu a partir de julho, quando Trump impôs a taxa adicional de 40%.

Desde então, o volume exportado para os EUA nos meses de agosto, setembro e outubro caiu cerca de 50%, quando comparado a igual período de 2024.

Uva

Em 2024, o país foi o destino de 12% todas as frutas frescas exportadas pelo Brasil. Nesse período, somente os exportadores de uva faturaram US$ 41,5 milhões, segundo a Abrafrutas.

Segundo o AgroStat, plataforma de dados de exportação do Ministério da Agricultura, 23% do total de uvas vendidas para o exterior em 2024 foram para os EUA.

Entre outubro e novembro, a comercialização de uvas para os EUA caiu 73% na comparação com o mesmo período de 2024, informou o diretor-executivo da Abrafrutas, Eduardo Brandão, em entrevista ao g1 em novembro.

Apesar de ter uma categoria de “frutas frescas” na lista de exceções publicadas pela Casa Branca em novembro, a uva ficou de fora dela, segundo confirmou a Abrafrutas com a embaixada.

Para o diretor-executivo, essa exclusão aconteceu porque os EUA são grandes produtores de uva e devem ter uma supersafra no próximo ano. Além disso, eles também importam muito do Chile e do Peru.

Entretanto, Brandão afirma que os cachos que deixaram de ir para os EUA já foram realocados para países da Europa e da América do Sul.

O maior prejuízo, portanto, foi que, com menos demanda, o poder de negociação para decidir o preço caiu, aponta o diretor.

Mel

Além do tarifaço de 50%, o mel brasileiro já estava sujeito à uma taxa de importação de 8,04% nos EUA, conta Renato Azevedo, presidente da Abemel, em entrevista ao g1 em novembro.

Todos os contratos com os EUA estavam garantidos até dezembro de 2025, afirmou Sitônio Dantas, diretor da Central de Cooperativas Apícolas do Semiárido Brasileiro (Casa Apis), em Picos (Piauí).

De acordo com o AgroStat, os EUA representaram quase 80% de todas as exportações de mel natural do Brasil.

Pescados

A exclusão dos pescados das isenções do tarifaço também frustrou o setor, disse o presidente da Abipesca, Eduardo Lobo, em entrevista ao g1 em novembro.

Segundo a associação, as vendas de pescados para os Estados Unidos geram US$ 300 milhões por ano para o setor.

Os norte-americanos representaram quase metade de todas as exportações do alimento em 2024, aponta o AgroStat.

Segundo Lobo, a atividade tem um peso importante no sustento de comunidades costeiras e ribeirinhas, com forte impacto em pequenas e médias empresas, “justamente onde a sensibilidade às tarifas é maior” Ele afirma que é urgente recolocar o pescado brasileiro no radar das negociações bilaterais.

“Precisamos de reciprocidade e de estratégia. A cada rodada de negociação em que o pescado é esquecido, perdemos espaço para concorrentes internacionais. O mercado americano é vital para o Brasil e a ausência de avanços é um sinal claro de que estamos ficando para trás.”

Leonardo Assad

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