ANTÔNIO FRANCISQUINI: Os desafios da cafeicultura na visão do maior cafeicultor do mundo

Da infância pobre ao maior cafeicultor do mundo, seu Antônio analisa com dados a quebra de safra, os custos de produção, a mão de obra e os impactos econômicos do café no Cerrado Mineiro e na Bahia

Por Carla Teles | CPG

História do maior cafeicultor do mundo, da geada à quebra de safra, com Cerrado Mineiro em destaque e impacto direto no café brasileiro.

Conheça a história do maior cafeicultor do mundo, que atravessou geada, encarou quebra de safra, apostou no Cerrado Mineiro e ajudou a transformar o café brasileiro.

A história do maior cafeicultor do mundo começa com um pãozinho dividido em oito, noites de fome e muita roupa lavada em bacia. Hoje, o mesmo homem que já foi cobrador de ônibus e caminhoneiro comanda um império do café, espalhado por vários estados do Brasil.

Entre fome, geada, dívida, mudança de estado e quebra de safra, seu Antônio aprendeu a transformar crise em oportunidade. Da infância pobre em São José do Rio Preto à chegada ao Cerrado Mineiro, ele atravessou geadas históricas, viu lavouras queimarem, comprou fazendas desacreditadas e construiu, na marra, o título de maior cafeicultor do mundo.

Infância de fome, pão dividido e primeiros trabalhos

Antes de ser chamado de maior cafeicultor do mundo, seu Antônio era apenas um menino pobre do interior de São Paulo.

Ele nasceu em São José do Rio Preto e lembra bem da cena que resume a infância: um pãozinho repartido em oito pedaços para alimentar toda a família.

A mãe lavava roupa para fora, a pobreza era constante e roupa remendada era regra. Ele mesmo diz que “não era mendigo, mas era pior ainda”, porque não faltava só dinheiro, faltava tudo.

Ainda criança, carregava mala de roupa para que a mãe pudesse lavar no hospital. A base de tudo era muito trabalho e quase nenhum conforto.

Na adolescência, aos 15 anos, veio a primeira grande virada. Seu Antônio foi para o Paraná, roubou mato, plantou café, virou cobrador de ônibus e depois motorista, sempre juntando qualquer dinheiro possível. Pouco a pouco, saiu de empregado para pequeno proprietário.

Do primeiro sítio à decisão que mudaria tudo

No final dos anos 1950, a família tinha apenas seis alqueires de café em Ivatuba, perto de Maringá, no Paraná. Eram oito irmãos dividindo quase nada.

Depois da morte da mãe, a pequena área foi vendida, e cada irmão recebeu cerca de 1.500 cruzeiros, o único patrimônio real da família.

Com o tempo, seu Antônio foi comprando pequenos sítios, sempre em área de café. Ele mesmo repetia uma meta simples: “quando eu tiver 100 mil pés de café, eu paro”.

Na prática, isso nunca aconteceu. Cada negócio bem-feito puxava outro, e aquela semente de agricultor cresceu até se tornar o maior cafeicultor do mundo.

A geada que derrubou lavouras e levantou um império

A grande virada da história veio com a geada de 1963. Na véspera, ele havia conseguido comprar mais um pequeno sítio. Tinha café, tinha risco e tinha dívida.

Quando a geada veio, o preço do café disparou, e seu Antônio tomou uma decisão corajosa: vendeu café a um valor que parecia impensável na época.

Ele costuma dizer, sem rodeios, que “o que eu tenho hoje, eu ganhei com a geada”. Em vez de reclamar do clima, usou o momento para pagar fazenda, comprar outras áreas pequenas e ir somando propriedades.

A cada safra decisiva, consolidava mais sua posição até se tornar, anos depois, reconhecido como maior cafeicultor do mundo.

Esse movimento se repetiu em outros momentos da cafeicultura: enquanto muitos quebravam, ele comprava áreas desvalorizadas, assumia o risco e reconstruía lavouras onde muita gente só via prejuízo.

A chegada ao Cerrado Mineiro e a mudança definitiva

Nos anos 1980, um novo desafio surgiu. As lavouras do Paraná começavam a sofrer com nematoides, especialmente em áreas de solo arenoso. A solução foi olhar para outro mapa.

Curioso com o potencial do Cerrado, seu Antônio veio conhecer Minas Gerais em 1986 e 1987. Visitou lavouras, conversou com produtores, avaliou clima e altitude.

Não demorou muito para comprar a primeira fazenda em Carmo do Paranaíba. Depois, vieram novas áreas na região de Monte Carmelo, até ele se estabelecer de vez no Cerrado Mineiro.

Hoje, boa parte do império do maior cafeicultor do mundo está fincada nesse território de chapadões, inverno seco e altitude ideal para café de qualidade. E ele mesmo admite: não pretende ir embora de Minas Gerais nunca mais.

Como o maior cafeicultor do mundo administra tantas fazendas

Com o crescimento das áreas, administrar virou um desafio à parte. Não é simples cuidar de múltiplas fazendas em estados diferentes, lavouras em fases distintas e milhares de hectares plantados.

Seu Antônio resolveu isso com algo que valoriza tanto quanto adubo e tecnologia: gente de confiança. O grupo é dividido em polos, cada um com um gerente responsável, equipes locais e suporte técnico.

Há consultoria agronômica, monitoramento fitossanitário, uso de tecnologia simples e funcional e muita comunicação por ferramentas digitais para integrar Bahia, Minas Gerais e outras regiões.

Mesmo assim, ele continua presente. Nos polos mais próximos, como na região de Romaria, o maior cafeicultor do mundo acompanha de perto o dia a dia, pergunta sobre operações, questiona custos, quer saber de produtividade e não perde de vista o caixa.

Seu foco, repetido pela equipe, não é apenas colher muito, mas colher com custo sob controle e sobra no bolso. Para ele, não adianta bater recorde de sacas se o custo engole a margem.

Quebra de safra, mão de obra escassa e café que não para

Mesmo com toda experiência, nem o maior cafeicultor do mundo escapa dos desafios recentes da cafeicultura.

Ele relata uma quebra de safra de cerca de 80% em algumas áreas, principalmente em Minas Gerais. Onde poderia colher centenas de milhares de sacas, deve tirar apenas uma fração disso.

Na Bahia, ele ainda conta com uma safra cheia, mas não o suficiente para compensar completamente as perdas. Geada, frio, estresse das plantas e irregularidade climática deixaram marcas profundas nas lavouras.

O que parecia uma perda de 50% foi piorando conforme o tempo passou e as lavouras mostravam o dano real.

Outro problema grave é a falta de mão de obra. Ele já trabalhou com milhares de boias-frias e centenas de funcionários fixos.

Hoje, mal encontra gente disposta a colher café, principalmente nas lavouras mais novas, onde não dá para passar máquina em tudo. Muitos trabalhadores evitam registro formal com medo de perder benefícios sociais, e isso estrangula a colheita manual.

Café x grãos: o futuro da cafeicultura na visão de quem viu tudo

Quando olha para frente, o maior cafeicultor do mundo é direto: se a conta não fechar, muita área de café vai virar soja e milho. Com soja rendendo bem, manejo mais simples e ciclo mais curto, a comparação com o café é inevitável.

Enquanto o café exige cuidado o ano inteiro, de segunda a segunda, soja e outros cereais têm uma rotina mais previsível: plantar, pulverizar, colher.

Seu Antônio lembra que áreas afetadas por geadas severas, como em regiões próximas a Araxá, podem não voltar nunca mais para o café, migrando definitivamente para cereais.

Na visão dele, quem errou nas previsões de safra alta e contou com um dinheiro que não veio agora está em sérias dificuldades.

Ele mesmo ajustou as expectativas cedo, aceitando que a produção seria menor, o que permitiu reorganizar finanças e planos.

De cobrador a maior cafeicultor do mundo: o que essa história ensina

A trajetória de seu Antônio é, ao mesmo tempo, uma história de café e uma aula de resiliência. De um menino que repartia um pão em oito pedaços e carregava mala de roupa para ajudar a mãe, ele se transformou no maior cafeicultor do mundo, dono de diversas fazendas, com estoque de café, estrutura de gestão e nome respeitado em todo o setor.

Ele atravessou geadas devastadoras, quebras de safra, falta de mão de obra, mudanças de região, desconfiança de quem não acreditava que um ex-cobrador pudesse comprar fazenda.

Mas insistiu, arriscou, comprou quando muitos vendiam por desesperança e, acima de tudo, nunca perdeu o hábito de olhar de perto cada detalhe da lavoura e dos números.

No fim, a história do maior cafeicultor do mundo mostra que crises podem ser portas de entrada para saltos gigantes, desde que alguém tenha coragem de passar por elas com olhos abertos para oportunidade.

E você, o que mais te impressiona nessa história do maior cafeicultor do mundo: a infância de fome, a coragem na geada ou a visão sobre o futuro do café brasileiro?

Leonardo Assad

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